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História da esgrima

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História da esgrima Medieval e Renascentista

Era Medieval

Autoria de Pete Kautz; Tradução de Bruno Cerkuenik

“Não há homem de armas que possa usar cortesia ou bondade para enfrentar seu inimigo” – Fiore dei Liberi, 1410

Durante a Idade Média, por volta dos séculos XIV-XV, os guerreiros da Europa desenvolveram um poderoso estilo de combate que provou ser igualmente vitorioso no campo de batalha em tempos de guerra, nas ruas para suprimir revoltas e para defesa pessoal. Esses homens lutavam duelos pessoais e judiciais até a morte, assim como participavam de batalhas organizadas ou torneios. Embora os torneios possam nos parecer civilizados, e fossem disputados com espadas cegas ou de madeira e juízes, eles normalmente acabavam com homens portando bestas envolvidos na disputa, tentando prevenir que seus cavaleiros fossem derrotados, capturados e usados para pedir resgate mais tarde por outro cavaleiro. Esqueça as noções de cavalaria que você possa ter sobre a vida desses homens – ou eles matavam, ou eles morriam, simples. Quando as guerras avançavam pela Europa, técnicas de combate eram temperadas na forja da batalha, e os guerreiros de cada país aperfeiçoaram suas técnicas para que pudessem passá-las para a próxima geração.

Essas técnicas de matar, conhecidas por homens que lutaram e sobreviveram a muitas batalhas, se tornou parte de uma tradição militar oral, transmitida de um guerreiro a outro. Então, começando por volta de 1300, livros que ensinavam técnicas de luta eram feitos em pequenas quantidades, cada um cuidadosamente reproduzido a mão. Alguns desses livros continham uma pequena quantidade de técnicas ilustradas, mas outras, como o trabalho de Fiori dei Liberi e Hans Talhoffer catalogavam literalmente centenas de técnicas individuais e contra-ataques. Por volta de 1400 esses manuscritos eram produzidos em um número maior, com vários autores escrevendo vários livros durante sua vida. E assim continuou pela Idade Média e pela Renascença, com livros escritos em vários países, embora a maior quantidade viesse do Império Romano-Germânico (Atualmente Alemanha, Áustria e Itália). Essa Era viu o peso do combate corpo-a-corpo Medieval, e essa foi a Era dourada dos “Fechtbuch” ou “Livros de luta”.

I33 – atualmente, o mais antigo manual de esgrima européia.

Contudo, durante a Renascença, por volta dos séculos XVI-XVII, as coisas mudariam com a invenção da imprensa e com os novos professores que aceitavam civis como estudantes. Durante a Idade Média, os livros de combate eram mantidos com os guerreiros profissionais, e as verdadeiras técnicas de matar e suas defesas eram guardadas como segredos. No ano de 1410 o livro Flos Delatorum (Flor da Batalha) o mestre Italiano Fiori de Liberi diz que essas técnicas deveriam ser mantidas em segredos exceto “Para os especialistas em espadas para ajudar os guerreiros em tempos de guerras, revoltas e duelos” e nunca deveriam ser revelados ao povo comum “Que foram criados por Deus sem capacidade como vacas apenas nascem apenas para carregar cargas pesadas”. Fiori nunca mostrou suas técnicas em público, exceto quando as usava em batalha, e ele ensinou a seus estudantes atrás de portas fechadas, fazendo-os jurar segredo sobre o que aprenderam. Ele escreveu seu livro quando estava velho, muito depois de suas técnicas serem necessárias, e sob o serviço do “mais ilustre mestre Niccolo Marquês de Ferrara, Modena, Parma, and Reggio”, Que usaria seu livro para treinar seus cavaleiros.

Em um nível técnico, um dos primeiros elementos chave que você encontra ao ler os livros medievais e que eles contém uma grande quantidade de material de combate desarmado. Um cavaleiro medieval, um Homem-de-Armas, era de se esperar que soubesse combate desarmado e com adagas assim como combate de espada e lança, com o qual os associamos hoje. Nos manuais de sobrevivência no campo de batalha, muitos continham longas seções de ataques desarmados e agarrões, defesa desarmada contra adaga, e combates com adagas. Técnicas desarmadas contra espada e adaga contra espada também eram mostradas. Os manuais mostram travas de juntas sistemáticas, quebras, arremessos, desarmes, contra-ataques, clinches, agarrões e agarrões em solo e mais. O sistema de combate desarmado é também totalmente integrado ao combate de espada e lança, com a maior parte das técnicas mostradas envolvendo algum degrau de trabalho a curta distância.

Você verá técnicas idênticas (particularmente arremessos e travas de braço) feitas com todos as formas diferentes de armas, mostrando a natureza integrada desse sistema. O Cavaleiro medieval realmente entendia como fazer a conexão entre as técnicas essenciais de combate, não importando o tipo de arma. Primariamente, esse era um estilo de luta baseado em armas, que usava agarrões de pé como um complemento às técnicas de combate armado, de maneira similar ao os treinos militares de hoje, usando ataques nos olhos, socos no queixo, joelhadas e chutes baixos. Luta no chão era usado basicamente pra manter o cara no chão tempo suficiente para você sacar sua espada ou adaga e furá-lo, ou segurar ele para os lanceiros possam perfurá-lo.

Somente quando você via essas técnicas usadas em duelos judiciais ou duelos, onde ninguém fosse interferir com a luta, você veria os agarrões como nós vemos hoje, sendo aplicados. Assim como aquelas usadas de pé, você verá enforcamentos, quebras de perna e braços e muitas outras técnicas semelhantes sendo usadas no chão. A armadura era usada pra desgastar e cansar o oponente, e era comum ver homens pegando armas que caíram no chão, ou sacando uma adaga, enquanto agarravam. Os duelos eram grandes espetáculos, com preparações elaboradas de ambos os combatentes, envolvendo orações, banho ritual e mais. Ele deveria andar de seu pavilhão orgulhosamente, em frente a grande platéia, para o campo de batalha, e aí, não haveria ninguém lá alem de dois homens, um juiz e Deus. Muitas imagens que temos desse período mostram imagens nesses padrões.

Além de usar várias outras armas, como a maça ou o machado, o Guerreiro medieval tinha que aprender a usar a armadura que ele vestia como uma arma. Lutar com uma armadura real é bem diferente do que lutar sem armaduras, e os Alemães usavam os termos “blousfechten” e “harnisfechten” pra descrever combate em trajes normais e com armaduras, respectivamente. A armadura de placas e a armadura de anéis daquele tempo incapacitavam muitos ataques de corte e perfuração, permitindo ao usuário chegar perto e lutar com sua espada longa de uma maneira diferente, segurando no meio da lamina com uma mão e usando como uma baioneta, técnica chamada de “halbschwart”, “half-sword” ou técnicas de “meia-espada”, projetadas para entregar estocadas poderosas nas falhas da armadura. Adicionalmente, a armadura seria usada pra desgastar o oponente no solo, e os cotovelos e joelhos pontudos poderiam fazer uma horrível pressão em um oponente sem armaduras. Até os sapatos da armadura (chamadas “sabatons” pelos franceses) vinham com pontas usadas para chutar por baixo das armaduras ou, quando à cavalo, para chutar pessoas caso chegassem muito perto de você.

Lutar em cima de um cavalo era outra técnica importante que um cavaleiro tinha que aperfeiçoar. A lança (Long Spear ou Lance) era usada, junto com a maça e a espada, de cima do cavalo. Fiore dei Liberi, entre outros, também mostrava muitas maneiras de usar as técnicas de agarrão para tirar o adversário de seu cavalo, lado a lado. Ao lutar em um cavalo de guerra, um cavaleiro era uma força imponente no campo de batalha. Pesando quase uma tonelada com seu cavalo, e viajando a 35 milhas por hora, um cavaleiro montado deveria inspirar um verdadeiro terror em qualquer soldado o enfrentando a pé.

Essa completa arte de combate desarmado Ocidental é muito mais antiga que estilos comparáveis como Jiu-Jitsu, Chin-Na, Aikido, ou Hapkido. A maior parte de das artes marciais ensinadas hoje tem mais ou menos 100 anos e podem ou não ter relação com combate mortal. Muitos praticados hoje são ensinados para manter a saúde ou como meditação. Nos livros de combate Medievais, são ensinadas técnicas com mais de 500 anos de idade, e eram usadas para matar. Muitos irão falar da “Descendência dos Samurais” ou do “Espírito Shaolin”, fazendo-os parecer mais antigos, ma qual é a história verdadeira das técnicas do que eles ensinam? Elas foram desenvolvidas em separado, ou foram inspiradas em uma arte mais antiga? Com o Ocidente, a história das artes de combate foi preservada através dos manuais escritos dos mestres que sabiam que elas seriam usadas, tanto no campo de batalha como na rua.

Renascença

“Nesses tempos modernos, muitos homens são machucados por não ter armas ou conhecimento do seu uso”

–  Achille Marozzo, 1536

Durante a Renascença, entre os séculos XVI-XVII, houve muitas mudanças nos estilos das espadas Européias, e um novo estilo evoluiu baseado nos antigos métodos de combate do período medieval. Basicamente, foi uma mudança do estilo de combate militar para ser utilizado em larga escala por civis, e usado em treinos em “academias” para aqueles que pudessem pagar. Além disso, com a invenção da imprensa, começou uma produção em larga escala de manuais de treino, com muitos sendo traduzidos e vendidos. Antes desse tempo, esses manuais eram o segredo de guerreiros profissionais e as verdadeiras técnicas assassinas e suas defesas eram muito bem guardadas, mas essa tradição de segredo mudou quando os professores renascentistas os vendiam a audiência que possuía dinheiro para pagar para aprender essas “técnicas de combate formal”. Na renascença, com a evolução na cultura urbana, a leve rapieira ou sabre se tornou a arma do povo, enquanto no uso militar, crescia o treinamento em armas de fogo e formação de lanças para a guerra, diminuindo a importância de combatentes individuais e da espada. Alguns mestres, particularmente os Ingleses, preferiam os antigos métodos, e uma das maiores queixas do famoso mestre George Silver sobre a “nova” rapieira é que ela não tinha uso em tempos de guerra, e que os homens deveriam utilizar as antigas e pesadas espadas militares.

O primeiro manual a ser mecanicamente reproduzido para a venda foi Opera Nova (“The New Work”) de Achille Marozzo em 1536, e os espadachins ocidentais sempre consideraram esse trabalho como um dos mais importantes manuais de luta. Marozzo não somente publicou seu livro mas também ensinou muitos professores, e foi o primeiro Mestre a atravessar a fronteira entre os militares, a polícia, os artistas marciais e os cidadãos informados. Ele cobria ambas as velhas armas militares como a espada longa e lança, assim como as novas armas civis, como as espadas de corte e estocada e a rapieira, assim como o pequeno buckler (Broquél). Ele também incluiu uma longa seção de combate desarmado, e até a metade de 1600 não se viu nada desse tipo na Europa, em termos de combate desarmado. Vinte e duas técnicas são mostradas nessa seção, duas delas mostram faca com faca e as outras vinte mostram várias técnicas de ataque desarmado contra faca.

Marozzo, então, é o elo que une os estilos Medievais e os novos estilos Renascentistas. O que ele mostra é uma versão condensada dos tipos de movimentos usados nos sistemas italianos iniciais, como o usado por Fiore dei Liberi e documentado no seu Flos Dellatorum em 1410. Dei Liberi mostrou mais de 100 técnicas individuais de combate corpo a corpo e agarrões, que Marozzo destilou em 22 técnicas. Uma importante diferença entre os dois era o que Marozzo deixava fora de seu livro. Enquanto Fiore mostrava diversos contragolpes para todos os seus movimentos, Marozzo não os menciona nem como uma possibilidade. Nesse sentido, o trabalho de Marozzo parece muito “otimista” pois as técnicas funcionariam como o planejado e “contragolpes e seus contragolpes” não eram explorados.

Isso de nenhuma maneira reduz a importância do trabalho de Marozzo, e muitos praticantes estudaram e ensinaram os seus métodos, e muitos esgrimistas declaram que ele foi o “Pai da Esgrima Moderna” e “O Primeiro Professor Científico”. O grande esgrimista e historiador Alfred Hutton era fã dos métodos de ataque desarmado contra adaga de Marozzo e incluiu 14 das suas 22 técnicas em seu livro “Cold Steel”, de 1889. Hutton foi um dos mais da moderna pesquisa sobre a verdadeira arde de combate de espadas Ocidental, e seus trabalhos “Cold Steel” e “Old Swordplay” são bons pontos de partida.

Depois de Marozzo, a maioria dos livros produzidos durante a Renascença cobria puramente os aspectos civis da arte da espada, embora o manual de Giacomo DiGrasi, “True Art of Defense”, de 1594 ainda incluía as armas militares Espada de Duas Mãos, Alabarda (Halberd) e Lança. Com poucas dessas notáveis exceções, a maior parte dos manuais do século XVI focava em rapieiras, ou rapieiras em conjunto com adaga, broquél, capa ou uma outra rapieira. Infelizmente, as técnicas de uso de adaga como única arma eram ignoradas na maioria dos manuais da época, e as técnicas de combate desarmado eram apenas mencionadas como técnicas de suporte ou desarme, para quando se estava perto demais para usar a espada de modo eficiente, e não mais eram ensinadas como parte de um amplo espectro de técnicas que um espachim deveria ter.

Quando a adaga é mencionada como única arma na Renascença, a tática medieval de cortar a mão do oponente que empunha a faca é freqüentemente descrita, tática usada em várias tradições por acabar rápido com brigas. Outras técnicas básicas demonstradas eram fintas por cima e por baixo para abrir ataques na outra, assim como arremesso ou um arremesso falso eram também mencionados. Quanto a arremessos de adagas, era comumente usado um feito por baixo da mão (underhand), no qual a faca ia com a ponta para frente, sem giro.

No fim da Renascença, os estilos de arte da espada mudariam novamente para o uso de espadas menores, mais leves e especializadas em estocadas, e a adaga seria descartada. Essas espadas se tornaram a marca dos “gentleman” e eram usadas em duelos de honra. As técnicas se tornaram mais e mais refinadas e longe da realidade do campo de batalha Medieval. Eram movimentos rápidos e atléticos, que deveriam sem empregados de maneira ligeira, com cada bloqueio sendo respondido com uma estocada. Com o tempo, esse estilo foi se espalhando até chegar aos militares e acabou se tornando a Esgrima Clássica dos Jogos Olímpicos de hoje.

Recentemente, diversos grupos em diversas partes do mundo começaram a procurar as raízes dos estilos de espada usadas originalmente na era Medieval, e essa arte aos poucos vem sendo resgatada dos antigos manuais.

Original em – http://alliancemartialarts.com/history.html

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