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O papel das outras artes marciais

O papel de outras artes marciais ao validarem às interpretações das artes marciais medievais e renascentistas.

Por JasonVail – Tradução – Bruno Cerkvenik

O teste final para a validade de uma interpretação de um manual de arte marcial medieval/renascentista é se você – e outros – pode realizar o movimento sob condições tão próximas às de combate (sendo realizado com segurança), enquanto seja fiel ao manual de instrução. Mas antes que você chegue nesse estágio, há um outro, um intermediário que pode fornecer orientação, percepção e uma prova real que pode te ajudar a não chegar num caminho sem saída.

Esta verificação é simples. Ele lhe pede para procurar e determinar se outras artes marciais tenham atingido as mesmas ou similar soluções para os mesmos problemas de combate.

Antes de ir mais a fundo, devemos considerar o conceito de validade. O objetivo do estudo das artes marciais históricas européias é recriar as artes de combate usadas por guerreiros na Europa durante a Idade Média e Renascimento. Como não existem linhas diretas de instrução que descendem dos antigos mestres, temos apenas os manuais de combate que eles no deixaram para trabalhar. Isto não é recreacionismo histórico, é a ressurreição de artes marciais perdidas no tempo. Sem eficácia em combate, você não tem uma arte marcial. Você tem um esporte na melhor ou um exercício físico na pior das hipóteses. Validação, então, é a eficácia em combate .

A interpretação começa com um texto do manual. Normalmente este texto é composto por uma imagem de uma técnica ou postura, a descrição escrita do dispositivo, ou ambos. É arriscado tentar a interpretação de uma imagem sozinha, porque as imagens apenas uma fração do movimento e, necessariamente, capturar apenas uma parte da técnica, e por isto, podem ser facilmente mal interpretadas. Idealmente, você terá texto e imagem para trabalhar, até mesmo o texto pode ser difícil de compreender ou pode ser ambíguo, deixando grandes lacunas que devem ser preenchidos pelo praticante.

Baseando-se no texto, é a primeira tentativa de elaborar sozinho o que o escritor se destina.

Quando você tem um conjunto de movimentos que parecem corresponder às técnicas descritas, tenta-se lentamente com um parceiro para ver se elas funcionam mecanicamente. Muitas vezes, a sua primeira interpretação irá revelar-se inviável, mesmo em câmera lenta. Mas você continua tentando outras variações, e acelerando a prática quando você se torna mais confiante em sua interpretação.

O passo que nos interessa aqui não é necessariamente um próximo passo, já que você pode executar até que você leia o texto pela primeira vez, tenta descobrir e chega à um entendimento preliminar da intenção do autor.

Este é o período de comparação. Você tem o texto na sua frente. Você acha que o entende. Você olha então para o que outras artes marciais fazem quando se encontram na mesma situação. Se as outras artes variam muito de seu entendimento preliminar, pode ser um sinal de alerta de que sua interpretação possa ter algum defeito.

O grande perigo da interpretação é a mesma que nas artes marciais modernas, “a técnica do dojô”: uma postura, um movimento ou uma técnica que se acha no conforto da sala de treino que parece legal ou parece funcionar nesse ambiente limitado. Se a técnica funciona na sala de treino, o inventor assume a sua validade. Isto  não é um fenômeno moderno. Os antigos estavam bem conscientes disso. Döbringer, escreveu em 1389,  que “muitos mestres de combate ( O termo aqui é “Leychmeistere” – que seria o mestre de luta esportiva, sem aplicação marcial) dizem que eles mesmos pensaram em uma nova arte de esgrima que eles melhoram dia-a-dia, mas eu gostaria de ver quem poderia pensar em um movimento de esgrima ou um golpe que não venha da da arte de Liechtenauer”.

Como observa Döbringer, tudo o que poderia ser inventado sobre combate corpo a corpo já foi criado. Você não consegue pensar em uma nova técnica de combate de verdade que alguém já não tenha descoberto, praticado e aplicado com sucesso em uma situação de vida ou morte. Mais de uma vez, enquanto treinava com parceiros de treino, quando pensei que tinha descoberto algo novo, já havia a técnica nos antigos manuais. Assim, a tarefa de interpretar os manuais é andar por caminhos que já foram percorridos antes de você.

A outra razão para recorrer a soluções encontradas em outras artes marciais é útil porque o corpo humano e armas funcionam praticamente da mesma maneira, independentemente do período ou cultura em que elas são encontradas. A Biomecânica Humana limita as técnicas e posturas eficazes. Resumidamente, métodos efetivos de combate corpo-a-corpo são universais, podem variar um pouco, por razões de estilo, mas seus atributos básicos permanecem os mesmos.

Exemplos:

Estes são retirados dos manuais de Fiore dei Liberi, de 1490, e de  Hans Talhoffer de 1467:

Podemos comparar esta técnica com as técnicas chinesas de “Chin na“.

Estes são de Fiore e de Joachim Meyer, de 1750:

Estas técnicas também são essencialmente semelhantes às técnica de Chin Na:

Há também esta chave de braço de Fiore, Meyer e Petter, de 1674:

Novamente, note a semelhança com este técnica de Chin Na:

Estas de Fiore, Talhoffer e Petter:

Agora veja a semelhança com esta de judô:

Outro exemplo de Fiore:

Esta técnica é bem conhecido por praticantes de judô e Sambô:

No manual “Codex Wallerstein”, você encontra esta técnica:

Que não é diferente desta técnica de luta olímpica americana:

Os europeus conheciam a técnica “whizzer“:

E esta técnica é usada ainda hoje:

Outra técnica que vemos nos manuais de Paulus Hector Mair e do Talhoffer:

Não é conceitualmente diferente da ténica de judo “tai otoshi”:

Como também de outras técnicas como Tomoe-nage,

ou Te Guruma,

Também podemos encontrar semelhanças nas técnicas com espada. Aqui temos uma imagem do manual do Meyer.

Observe as semelhanças entre as posturas das duas grandes figuras com esta de kenjutsu.

Além disso, observe as posturas amplas, uma característica da esgrima europeia que são muitas vezes conhecidas como balanças:

Estas posturas amplas também são características de muitas escolas “Ruy” de kenjutsu, como você pôde ver no exemplo acima, à esquerda.

Posturas de combate com a espada semelhantes também são encontradas várias escolas de “Ryu” de kenjutsu.  Não só posturas básicas como Vom Tag (sobre a cabeça e ou os ombros), Pflug, Ochs, e Alber, como também em outras menos conhecidas. Por exemplo, Meyer descreve uma postura chamada de Schlussel, ou “chave”: “A chave é ilustrada na Imagem D. Se você ficar com o pé esquerdo para a frente e manter a sua espada com o punho e as mãos cruzadas na frente do seu peito, e com borda curta residindo em seu braço esquerdo e a ponta contra o rosto do seu oponente, então esta postura ou guarda está corretamente executada “(tradução de Jeffery Forgeng).

Esta é a imagem D:

A grande figura do lado esquerdo está realizando a chave. E é muito parecida com posturas encontradas em algumas escolas de kenjutsu:

O motivo de comparar com outras artes não é copiar como eles executam as técnicas, mas sim para obter idéias do que os mestres europeus realmente tinha intenção em seus textos. Sobre a questão das posturas amplas na esgrima, por exemplo, algumas pessoas são céticas quanto a serem executadas desta forma. Mas o fato de que elas são constantemente descritas nos manuais Europeus e ao fato de que muitos escolas de kenjutsu usarem uma postura parecida, fortalece o argumento de que os manuais europeus não mentem e de as posturas não eram apenas truques do artista. Na verdade, os mestres europeus tinham claramente tinham a intenção de que seus alunos lutassem naquelas posturas, não importa o quão improvável possa nos parecer hoje em dia.

Cuidado, é claro, deve ser tomado em todos os momentos quando se comparam os manuais europeus à artes marciais existentes. Com armas, por exemplo, as especificidades de uma arma pode ser diferente da de uma européia dos tempos medievais/renascentistas, o que torna diferente sua utilização. Por exemplo, a presença de dois gumes na espada européia permite ataques inpossíveis com um sabre japonês (katana). A presença da cruz também possibilita técnicas que não são geralmente vistas na esgrima japonesa.

O desafio de fazer essas comparações é que a maioria de nós não tem uma vasta experiência em um grande número de artes marciais, no máximo experiência em apenas uma. Hoje, no entanto, é possível encontrar uma grande quantidade de material na Internet, especialmente vídeos, que mostram não só imagens, mas as técnicas em movimento. Leva tempo para encontrá-los, mas o esforço muitas vezes vale a pena. Também estão disponíveis DVDs, de praticamente qualquer sistema asiático que você possa imaginar. Existem milhares de livros que descrevem outras artes marciais também. Embora adquirir tudo isto possa custar muito, a biblioteca de referência que você terá valerá todo esse dinheiro.

Além disso, você deve estar certo de que a outra arte marcial é uma arte de combate: uma arte onde as técnicas e as estratégias são submetidas a um ambiente hostil de combate. Se não forem, elas no mínimo devem ser capazes de remeter à uma linhagem que possa ser traçada às épocas que usavam o combate corpo-a-corpo mais intensamente, ou se esportivas, devem permitir uma luta de alta intensidade e competividade, como judô, Sambô, Wrestling e MMA.

Lembre-se, pode ser que você nunca terá a certeza de que a sua interpretação de uma técnica era o que o Mestre tinha intenção. Ele não está aqui para corrigí-lo. Atualmente, tudo que você pode usar é o que está perto de você . E comparar com outras artes de combate o ajudará a enriquecer sua interpretações, e potencialmente, a colocará mais perto da visão do que queriam os mestres de combate.

Original em http://hemaalliance.com/?page_id=516

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