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O Mito do Teste de Corte

O Mito do teste de Corte

Texto de Hugh Knight – instrutor do grupo Die Schlachtschule

Tradução: Bruno Cerkvenik

Pessoas adoram pegar suas espadas brilhantes e afiadas e usá-las para cortar vários objetos como macarrões de piscina, garrafas d’agua e tatamis enrolados. Fazendo isso, fazem-los sentir-se fortes e marcialmente poderosos, quando na verdade só os levam à mal hábitos. Este texto mostrará que o teste de corte não tem nenhum valor, nenhuma proveniência histórica, leva a à má prática da esgrima, e confunde as pessoas de como as espadas funcionam.

A idéia do teste chegou até nós por meio dos praticantes de Kendo e Iaido. Muitos deles praticam teste de corte de vários tipos porque eles acreditam os ajudarão a cortar melhor; eles tomam isso com verdade absoluta, de fato, dizendo-nos que você pode ver o quão perfeito o corte de um espadachim é por como ele corta perfeitamente o alvo e ao mesmo tempo nos diz como as suas espadas são navalhas perfeitas cujo um mero toque pode cortar uma mão, ao que parece não vendo a contradição inerente: Se a espada é na verdade tão afiada assim que um corte tão desajeitado pode matar, então porque praticar outras coisas a mais do que isso?

Na realidade, teste de corte não faz parte da prática da esgrima japonesa (bem, não exatamente). Pode soar herético, mas é verdadeiro. O Bushi (o que é conhecido como Samurai hoje) não fazia testes de corte. “Que?!” você grita, pulando ao odor do sangue, “você nunca ouviu falar sobre Tameshigiri? Você acha que inventamos isso?!” Não, você não o inventou, você se enganou sobre o verdadeiro significado desta prática.

“O Tameshigiri era usado para testar o fio e a qualidade de uma espada: muitas vezes era executado em corpos mortos, criminosos, ou em bambus. Bushis do alto escãlão não praticavam Tameshigiri, porque era puramente um teste do fio da espada, e de modo nenhum uma medida das habilidades do samurai.”(Fumon, T., Samurai Fighting Arts: The Spirit and Practice, Kodansha Int’l, 2003, P. 49)

Os Bushi praticavam um tipo de corte chamado “suemonogiri”, mas isto tinha um objetivo especial. Quando um bushi ia cometer seppuku, ou o suicídio ritual, outro bushi chamado kaishaku o assistia; o seu emprego era cortar a cabeça do bushi que executava o seppuku (ou quase cortá-la — havia vários tipos diferentes de corte, mas isto está fora do ponto principal deste texto). O Seppuku era considerado um ritual importante, e o papel do kaishaku era muito importante. Os Bushi passava horas praticando este corte (alguns ryu-ha têm um kata dedicado para ele) para ser usado para a decapitação, e suemonogiri foi um instrumento importante neste processo. Mas não isso não era esgrima, e não era praticada como tal.

Então, Teste de corte não tem nenhuma relação com combate com espadas.

Agora em relação à Europa medieval: não temos nenhum registro de cavaleiros medievais que praticavam esse tipo de teste. Há uma história apócrifa de Ricardo I – o Coração de Leão – que ele corta uma barra de ferro para comprovar a Saladin o quão poderoso é seu braço e como era resistente a sua espada, mas não aconteceu de fato, e não teve nenhuma relevância sobre as características de combate. Quando lemos sobre treinamento na Europa de fato lemos só do treinamento em um “poste”. Isto é um pedaço do “Poema anônimo do Poste:

“Da luta, discipina e exercício,
Era isto. Ter um pell em pé
Da altura de uma homem, assim escreve o sábio,
Com isso um veterano, ou um jovem cavaleiro,
Deve primeiro ser ensinado a ficar em pé e a lutar
E escudo de peso duplo ele deve tomar ,
E de peso duplo uma maça de madeira deve brandir”

Assim estabelecemos que testes de corte não tem nenhuma proveniência histórica e nenhuma relação ao treinamento com espadas. Agora vamos ver o que ele faz à sua técnica: Quando as pessoas praticam testes de corte, elas se esforçam heroicamente para fazer um corte mais limpo do que o da última vez e que corta sem nenhum esforço.

Leia qualquer artigo sobre novas espadas na Internet escrita por alguém que acredita em testes de corte e uma porção significativa da sua revista discutirá como eles foram capazes de fazer o teste de corte com elas. Mas para executar esses cortes perfeitos, os praticantes invariavelmente (olhe em qualquer vídeo no YouTube) fazem cortes enormes, com moviementos exagerados que lembram os cortes de suemonogiri. Eles aprendem a fazer cortes que começam em uma guarda alta e terminam com o ponta perto do chão porque este tipo de movimentos resulta nos cortes mais limpos.

Mas Hanko Döbringer (ou quem quer que escreveu o manuscrito Hs. 3227a) nos diz isto sobre cortes:
“E esta arte é bastante séria e honrada, e ele vai do mais próximo à procura do mais fechado e vai diretamente quando você deseja golpear ou estocar. Porque quando você quer atacar alguém é como se você atasse uma corda na ponta de sua espada à abertura (dada pelo oponente)” (fol. 13v).“Você deve golpear ou estocar do modo mais curto e mais próximo possível. Já que nesta esgrima honrada não se fazem defesas abertas ou desajeitadas…eles tentam parecerer perigosos com golpes largas e compridos que são lentas e com esses golpes executam golpes que falham e criam aberturas neles.” (e seg 14r-v)

Em outras palavras, a verdadeira esgrima é sobre cortes tão pequenos e controlados quanto possível; não em direção ao chão, mas a uma posição chamada “Langenort” (ponta longa). De fato, o 1° Fechtbuch, I33, especificamente diz: “observe que o coração inteiro da arte está neste guarda final, que é chamada Longpoint; e todas as ações das guardas ou da espada terminam ou têm a sua conclusão nesta e não nas outras.”(Forgeng, J., The Medieval Art of Swordsmanship, Chivalry Bookshelf, 2003, p. 23).

Veja, quando você corta até a guarda Langenort, você está parando em uma posição na qual a sua ponta ameaça o seu oponente se você tiver falhado, e assim você mantém o controle sobre a luta. Se você cortar até o chão, você não está ameaçando à ele em absoluto.

(Nota: Você pode cortar até o chão de propósito como um modo de enganar o seu oponente; esta técnica é chamada de Wechselha, e é vista, entre outros lugares, na terceira técnica de broquel de Lignitzer, mas veja que isto é uma técnicas especial onde você age deliberadamente para provocar uma resposta do seu oponente).

Não só isso, mas cortando até o chão é perigoso porque dá ao seu oponente um “tempo extra” para atuar. Os mestres dizem-nos reagir a alguém que faz isto com uma técnica chamada Nachreisen (“seguindo depois”): “quando ele ataca com um Oberhau e tráz a lâmina com o golpe, siga-o com um golpe na cabeça antes que ele possa levantar a sua espada novamente.” (Tobler, C., Secrets of German Medieval Swordsmanship, Chivalry Bookshelf, 2001, p. 93)

Por que cortamos até a guarda Langenort em vez de cortar até o chão? Simples: Não só o corte o expõe ao Nachreisen, com também não é necessário. Verdade, não há nenhuma razão para fazer assim. As espadas medievais eram afiadas; não como navalha como muito gente pensa hoje em dia (bordas assim são normalmente frágeis), mas eram afiadas sim. (nota: O fio é resultado principalmente de sua geometria, para mais detalhes, acesso o artigo da Tipologia de Oakshott). Precisa-se de muita pouca força ou o esforço para se cortar uma caveira ou cortar um braço com uma boa espada. O corte pode não ser perfeitamente limpo, e a cabeça ou o braço não pode ter sido cortados completamente, mas você não tem de fazer isto para ganhar a luta, e evitar dar ao seu oponente a iniciativa da luta mais do que compensa a perda de um corte perfeitamente limpo.

Teste de corte com espada longa cega (blunt cutting):

Outro hábito feio que testes de corte criam é levantar as mãos para preparar-se para o corte. Deve ser óbvio por que isto é incorreto, mas li recentemente gente que discute a favor dele em vários site da Internet. Se você levantar as mãos para “carregar” para um corte, até com o menor esforço, você está telegrafando as suas intenções ao seu oponente. Na Idade Média, chamavam de búfalos os esgrimistas que faziam, pois o lutador confiava em golpes enormes, poderosos. Eles (Os búfalos) podiam ser derrotados com o Masterstrike conhecido como Schielhau ou por uma variação diferente do Nachreisen: “se ele levantar a espada para bater, vá atrás dele com um golpe ou um estocada na abertura superior antes de que ele possa concluir o golpe. (Tobler 2001, p. 92).

Deste modo, teste de corte não tem nenhuma proveniência histórica, nenhuma relação à treinamento com espada, e ensina hábitos de combate que podem, ser na melhor das hipóteses, denominados “terríveis”. Tudo que ele faz é favorecer a um desejo romântico inoportuno “de cortar algo” com a sua nova espada, e não há simplesmente nenhum valor nisto. Há sequer *algum* valor em testes de corte? Possivelmente; as pessoas têm, como eu disse, um sentido exagerado do fio letal de espadas (e eu vejo a contradição; lamento que eles não façam).

A tradição alemã reconhece três tipos primários de ataques com uma espada: Cortes, estocadas e fatiadas (quando a lâmina já está em contato com o alvo e você pressiona para causar o corte). Muitas pessoas acreditam que apenas o toque de uma lâmina na carne fará um corte letal, e simplesmente não é assim. Esta concepção errônea leva a erros na prática de cortes onde já há contato com o oponente), chamados de Schnitten na tradição alemã, na qual o espadachim simplesmente põe a sua borda no alvo e o empurra ou puxa ao longo da carne do seu oponente.

Todos que já cortaram algo assado no jantar deve saber: você deve cortar com pressão suficiente para fazer um corte profundo. Pode haver justificação para aprender estas técnicas utilizando testes de corte, desde que haja um material realista para ser testado.

Contudo, a versão simples a tudo isso é: Diga não a testes de corte.

Original: http://talhoffer.blogspot.com/2008/02/myth-of-test-cutting.html

Textos sugeridos:

http://www.thearma.org/essays/pell/pellhistory.htm

http://www.woodenswords.com/Pell/ubiquitous_pell.htm

http://www.thearma.org/Manuals/i33/i33.htm

http://www.thearma.org/essays/mastercuts.html

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