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Um porrete com ponta

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Por Dr. Timothy Dawson; Traduzido por Gregório Henrique Cervejeira

Journal of Western Martial Art

A imagem do armamento usado na Europa durante a Era Medieval e a Renascença, assim como a de muitas outras áreas da vida nesse período, são alvos de muitos “fatos” aceitos como verdade sem origem certa. Esse artigo fala de dois dos mais difundidos acerca das espadas usadas na Idade Média.

(Originalmente publicado em “Medieval History Magazine”, Volume 2, Number 3)

As duas idéias que expressam que as espadas da época da história definida como “Idade Média” (Antes do ano de 1400, para escolher uma marcação um pouco arbitrária) eram rústicas, desajeitadas, pesadas e voltadas para impacto, e então, mudando completamente, as espadas da “Renascença” (Depois de 1400), especialmente as da era avançada da renascença, eram armas leves e ágeis. Essa dicotomia pregada pelos prepotentes da pretensão Renascentista sobre “o barbarismo da Idade das Trevas” ou por aqueles que aceitaram sem críticas as imagens da cultura popular. Mas até mesmo alguns partidários da Idade Média apóiam essa visão, até mesmo notórios estudiosos disseram essas coisas e até alguns grupos dedicados a restauração da arte medieval expõe essas noções como parte de sua performance. Mas quão real elas são?

Há milhares de espadas que resistiram ao tempo e que estão em coleções pelo mundo, com a qualidade aumentando com o progresso do tempo. Infelizmente, não é um costume de seus curadores pesarem e medirem suas peças, ainda mais publicar essa informação. As informações seguintes foram coletadas dos catálogos publicados de duas coleções, a Wallace Collection em Londres e a do Stibbert Museum em Florença, e dos arquivos do Royal Armouries Museum em Leeds. O RAM também foi gentil em catalogar algumas peças que ainda não haviam sido investigadas.

CATEGORIAS PRINCIPAIS DE ESPADAS

Para melhor contextualizar os pesos das espadas, elas podem ser encaixadas em uma das três categorias funcionais de armas preparadas para o uso de combate:

1 – Designada para o uso em uma mão;

2 – Designada para o uso em uma ou duas mãos (Chamada de espada de “uma-mão-e-meia” ou “bastarda”);

3 – Designada para o uso com duas mãos

Obviamente, como uma espada era feita especialmente para aquela pessoa, o tamanho e a força do dono eram levados em consideração, mas mesmo assim, o seu uso pretendido se refletia no tamanho do cabo. Uma espada para uso com uma mão teria um cabo um pouco maior que o comprimento de uma palma, ou seja, 10 cm. Os cabos de espadas de duas mãos poderiam variar de duas palmas para mais de quatro palmas, 20-45 cm. Na categoria de espadas “bastardas” é um pouco menos clara e tende a se fundir com as de duas mãos. Como o nome sugere, o tamanho mínimo de uma espada de uma-mão-e-meia seria uma palma e meia, ou seja, 15 cm, com o restante da segunda mão envolvendo o pomo. Mas muitas dessas espadas, especialmente feitas na Alemanha, tinham um cabo longo o suficiente para acomodar ambas as mãos ainda tendo um peso para que pudessem ser manejadas com uma mão.

ESPADAS PARA USO FORA DE COMBATE

Uma espada para uso fora de combate pode soar estranho, mas havia dois tipos de espadas nesse período. Uma era a espada do carrasco, usada em execuções judiciais. Como apenas um giro era necessário, elas poderiam ser bem mais pesadas que uma espada de combate. Espadas de carrasco eram normalmente feitas na forma de uma lâmina curta com cabo para duas mãos e ponta quadrada. O segundo tipo era as imensamente grandes ou pesadas, chamadas às vezes de “bearing swords” pois eram usadas em procissões cerimoniais. Um exemplo espetacular desse tipo pode ser encontrado no Topkapi Palace Museum em Istanbul. Ela tem as proporções de uma espada de duas mãos européia mas tem mais de três metros de comprimento.

Compare o tamanho com a armadura Japonesa

ESPADAS DE DIFERENTES ERAS

Espadas de uma mão existiram por todo o nosso período. Espadas de corte e perfuração variavam de 75 cm a 120 cm. Sua supremacia não foi rivalizada até o século XII e então foi reafirmada no século XVII. E, é claro, elas continuaram a serem produzidas e usadas na Idade Moderna. As espadas variam das simples espadas Vikings com suas guardas em forma de cruz dos séculos VIII a X até as rapieiras (swept-hilted rapiers) e espadas de guarda de cesto (basket-hilted swords) do século XVI. As espadas “Bastardas” começaram a ser usadas no fim do século XII. Elas persistiram até o fim do século XVI e foram particularmente populares no século XV, mas no geral nunca conseguiram a mesma fama das outras duas formas. Espadas de uma-mão-e-meia excedem em tamanho e peso as espadas de uma mão.

O desenvolvimento de espadas mais compridas que fossem capazes de entregar mais força nos ataques pelo uso de duas mãos está associado com o desenvolvimento de mais armaduras protetoras, enquanto a antiga malha se tornava mais difundida e se tornava suplementada por cotas acolchoadas por cima ou por baixo das vestimentas, trazidas do Leste. A evolução da armadura continuou até que no século XIII a malha cobria grande parte do corpo e também era coberta, mais tarde trocada, por peçar rígidas de metal. Isso levou a criação das espadas de duas mãos do começo do século XIV. Nos próximos séculos a armadura crescia em proteção, permitindo o crescimento das espadas até o seu máximo tamanho funcional de 150 cm no século XVI.

RESULTADOS

Espadas de uma mão:

clique para ver em alta resolução.

Os pesos das espadas de uma mão estão marcadas por século. Pontos Vermelhos – Royal Armouries; Quadrados Azuis – Wallace Collection, Grã-Bretanha); Triângulos Verdes – Stibbert Museum, Itália.

Espadas de uma mão e meia:

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Os pesos das espadas de uma mão e meia estão marcadas por século. Pontos Vermelhos – Royal Armouries; Quadrados Azuis – Wallace Collection, Grã-Bretanha); Triângulos Verdes – Stibbert Museum, Itália.

Espadas de duas mãos:

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Os pesos das espadas de duas mãos estão marcadas por século. Pontos Vermelhos – Royal Armouries; Quadrados Azuis – Wallace Collection, Grã-Bretanha); Triângulos Verdes – Stibbert Museum, Itália.

SUMÁRIO

Esses resultados mostram que uma espada de uma mão normalmente teria um peso de 650g a 1400g, com poucas exceções, armas mais pesadas feitas para homens com grande força. Armas no baixo extremo eram extremamente finas e leves, e ainda sim, como os experimentos do presente autor puderam afirmar, efetivas do mesmo modo. Espadas no alto extremo ainda sim são leves o suficiente para que um homem normal pudesse usá-las com destreza e precisão. Espadas de uma-mão-e-meia tinham que ser capazes de serem usadas com uma mão, então não é surpresa que elas acabassem possuindo o mesmo tipo de padrão das espadas de uma mão, tendo de 800g a 1400g. A grande força e controle que poderiam ser exercidas com as duas mãos simplesmente levam a um pouco mais que o dobro do peso anterior, ou seja, espadas variando de 1500g a 2600g.

CONCLUSÃO

Desses exemplos podemos ver que a idéia de que espadas medievais e renascentistas eram armas pesadas e desajeitadas está longe da verdade. Espadas de uma mão podiam ser bem leves, e mesmo a mais pesada das espadas de duas mãos era passível de um uso com bastante destreza. E a evidência é clara que bem cedo nesse período haviam técnicas sofisticadas de como empregar ferramentas tão bem trabalhadas… Mas essa é outra história. Então, quando alguém falar do enorme peso das espadas medievais, mostre averdade sobre elas.

GLOSSÁRIO

*Cabo: a parte manuseável da espada, incluindo pomo, pega e guarda.

*Pomo: o fim da espada e do cabo, pode ser tanto um contrapeso como uma peça decorativa de metais ou outros objetos.

*Pega: porção segurada pela mão, geralmente feita de madeira e coberta de couro ou outro material.

*Guarda: peça de vários formatos entre o cabo e a lâmina. Como o nome sugere, era usada para oferecer alguma proteção a mão.

(Nota: Para mais detalhes sobre cada formato, veja o artigo sobre a Tipolologia das Espadas)

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